Até havia momentos em que tudo ficava bem entre os dois, mas o garoto logo tratava de acabar com a conversa e sair de perto dela, pois sabia que não queria mais ter um relacionamento amoroso com aquela garota complicada - bastava todos os meses que havia estado com ela sem jamais ter compreendido o que ela queria de verdade.
Já ela, orgulhosa e apaixonada, desejava ardentemente retomar a relação - ou começar uma nova e totalmente nova relação. Mas não adiantava, por mais que eles conseguissem ter momentos memoráveis, o garoto sempre dava o pé para trás. Ela nunca compreenderia a mente dele. Por que os garotos faziam tudo errado?
Até que ela decidiu que estava cansada. Não queria mais passar dias e noites perguntando a si mesma qual era o problema daquele garoto, e muito menos queria continuar se torturando pelo medo que ele tinha de amar alguém - era o que ela supunha.
Ora, pensava ela caminhando pela calçada limpa de seu bairro, o que mais posso pensar? Quando ele perceber que está cometendo o maior erro da sua vida, ele virá até mim e tentará voltar. Coitado! Perdeu a oportunidade de ouro que eu o dei. Perdeu alguém que realmente o amou...Sinto pena dele.
E os dias foram passando. Pretendentes iam e vinham todos os dias, mas a menina não queria saber de iludi-los, do mesmo modo que o garoto a havia iludido.
-Aquilo não quero pra ninguém! - disse ela certa tarde, após receber uma proposta de um garoto da faculdade. - Acredite em mim, é melhor assim.
- Como você pode dizer se algo é melhor ou pior sem vivenciar a experiência? - Questionou o menino com uma pitada de timidez.
A garota analisou a pergunta do menino, e sabia que ele tinha razão. A única explicação para ela não querer engajar um relacionamento com ele era seu amor pelo outro. Mas isso ela não admitiria.
- Olhe, além de inseguro, você demonstra ser pessimista demais. E, eu realmente não estou com cabeça para algo sério agora. É melhor desse jeito, você verá. Um dia desses eu gostaria muito de dar uma volta com você e ter uma longa conversa. Queria muito contar minha história.
O garoto a encarava incrédulo. Ela percebeu. Hesitou um pouco antes de prosseguir:
- Não vai acontecer nada...Não posso. E não quero. Mas sei como você se sente. Gostaria muito de ajudá-lo se pudesse. Vou entender se não quiser mais me ver daqui pra frente.
O garoto levantou-se e deu dois passos, afastando-se dela. Depois parou e voltou-se novamente para a garota.
- Você não me conhece. Como pode falar sobre insegurança ou pessimismo? Você precisa se tratar, garota... - E foi-se embora, deixando-a para trás.
A menina continuou vivendo. Ainda sofria bastante pelo garoto que havia namorado, mas sofria também pelas duras palavras que o pretendente havia dirigido a ela. Seu único subterfúgio era afogar as mágoas em intermináveis lágrimas que só tinha coragem de chorar pela noite, quando estava sozinha em sua cama, sem a menor vontade de dormir. Ele não me merecia...E aquele outro muito menos! Quem precisa se tratar é ele! Aliás, os dois precisam! Repetia freneticamente sem dizer palavra alguma.
- Um relacionamento é construído por duas pessoas e não por apenas uma - disse sua amiga certa vez, após ouvir pela milésima vez as lamentações e insultos lançados aos dois garotos.
- Eu sei disso...
- Não, não sabe - Interrompeu a tal amiga rispidamente. - Todas as vezes que você fala desse seu relacionamento fracassado, você se refere apenas a ele, ao garoto. Todas as vezes que fala de suas mágoas, você se refere apenas ao outro garoto que a mandou se tratar. E você? Onde está sua parcela de culpa nisso tudo?
A garota arregalou os olhos e não pôde esconder o espanto pelo que a amiga dizia.
- Ou você não se lembra dos dias que tratou seu ''amado'' - e a amiga fez questão de destacar essa palavra com cuidado para não parecer irônica - com frieza e o chamou de idiota sem ao menos se dar ao trabalho de explicar a ele o motivo de você ter estado daquele jeito? Não se lembra da frase mais repetida por ele quando você o repelia dizendo que não queria mais falar com ele, ''o que foi que eu fiz?!'', não era? Não era o que ele a perguntava? Talvez a pergunta tenha sido feita incansavelmente por ele, não mais para você pois você não o responderia, mas para ele mesmo.
- Ele era insensível...Esquecia os horários dos nossos encontros e dizia coisas que me deixavam magoada... - Explicou a menina desconcertada.
- E você conversou sobre isso com ele? Não. Para você bastava chamá-lo de insensível e deixar a culpa nas costas dele. Claro, ele tinha a missão de adivinhar o que você estava sentindo, não? Aliás, todos têm a missão de adivinhar o que você quer, porque caso não façam isso, você fechará a cara e os tratará com frieza.
- Mas...
- E por DEUS! Dizer que o outro era pessimista e inseguro? O que você sabia sobre ele para dizer algo assim? O que ele respondeu foi pouco. Se tivesse sido eu, pode estar certa de que diria coisas muito piores.
- Pensei que você fosse ajudar...
- Errado, mais uma vez. Você pensou que eu fosse ser seu objeto, como pensa de todos os outros. Como pensou do seu ''amado'' e do garoto que você deu um ''fora''. Você podia ser um pouco menos egoísta, amor. Em momento algum você parou para pensar em como aqueles garotos devem ter se sentido. E se tivesse sido com você?
Aquela última frase chocou a garota. Ela não teve palavras para retrucar e tampouco adiantava fazer isso. Por alguns segundos, ela não sabia se o que sentia era bom ou ruim. Era raiva ou gratidão? Sem saber a resposta, levantou-se e saiu sem ser rude, mas também sem se despedir. A amiga, com a consciência tranquila - afinal ela não havia se alterado em momento nenhum durante a conversa- pensou consigo mesma enquanto fitava a pobre garota que caminhava olhando para algo que ela só podia enxergar naquele momento. Ela não entende os garotos. Mas acho que nunca vai entendê-los se não parar de julgá-los. Um dia aprende. Todos aprendemos. E relembrou das coisas tristes que haviam acontecido em seu passado e que a haviam feito aprender.
Natanael olhava para o horizonte. Havia sido cruel demais com a menina. Deu uma risadinha. Fui ao menos sincero, pensou dando de ombros. E jogou mais uma pedrinha no riacho, acompanhando-a com os olhos enquanto ela saltava pelas águas calmas.
- Você gosta disso, não? - perguntou a garota que se aproximava.
- Jogar pedrinhas na água? Sim... - Respondeu ele sem olhar para ela.
- Maluco. Mas não mais do que eu.
- Por quê? - Perguntou Natanael, finalmente encarando a garota.
- Porque enquanto você atira pedrinhas na água, eu me atiro por completo. - E atirou-se no riacho, molhando propositalmente as calças de Natanael, que deu um salto de susto.
- Você precisa se tratar! - Informou ele sorrindo.
A garota olhou para o céu e respondeu:
- Você é que precisa! Afinal, quem perde tempo atirando pedrinhas no riacho quando pode atirar a si mesmo?!- Perguntou animada.- A propósito, sou Clarissa. - E estendeu a mão molhada. Já havia observado aquele garoto outras vezes naquele local. Achava-o interessante e sabia que não tinha nada a perder. Conversaram durante a tarde e marcaram de se ver no dia seguinte, não no mesmo lugar nem na mesma hora.
Enquanto Ricardo, do outro lado da cidade, olhava para o computador. Lá estava a foto da indecifrável garota que tanto o havia tirado o sono. Espero que você descubra que o mundo não gira ao seu redor, menina. Ricardo lembrou-se das coisas que havia vivido com ela. Por um segundo, sentiu o impulso de ligar para ela e dizer que havia pensado melhor. Mas conhecia a orgulhosa garota. Sabia que ela no mínimo o mandaria pescar.
- Cláudia, Cláudia... - sussurrou. Esboçou um sorriso.- Como você costuma dizer, a vida continua.
E deletou a foto dela de seu computador.
Já ela, orgulhosa e apaixonada, desejava ardentemente retomar a relação - ou começar uma nova e totalmente nova relação. Mas não adiantava, por mais que eles conseguissem ter momentos memoráveis, o garoto sempre dava o pé para trás. Ela nunca compreenderia a mente dele. Por que os garotos faziam tudo errado?
Até que ela decidiu que estava cansada. Não queria mais passar dias e noites perguntando a si mesma qual era o problema daquele garoto, e muito menos queria continuar se torturando pelo medo que ele tinha de amar alguém - era o que ela supunha.
Ora, pensava ela caminhando pela calçada limpa de seu bairro, o que mais posso pensar? Quando ele perceber que está cometendo o maior erro da sua vida, ele virá até mim e tentará voltar. Coitado! Perdeu a oportunidade de ouro que eu o dei. Perdeu alguém que realmente o amou...Sinto pena dele.
E os dias foram passando. Pretendentes iam e vinham todos os dias, mas a menina não queria saber de iludi-los, do mesmo modo que o garoto a havia iludido.
-Aquilo não quero pra ninguém! - disse ela certa tarde, após receber uma proposta de um garoto da faculdade. - Acredite em mim, é melhor assim.
- Como você pode dizer se algo é melhor ou pior sem vivenciar a experiência? - Questionou o menino com uma pitada de timidez.
A garota analisou a pergunta do menino, e sabia que ele tinha razão. A única explicação para ela não querer engajar um relacionamento com ele era seu amor pelo outro. Mas isso ela não admitiria.
- Olhe, além de inseguro, você demonstra ser pessimista demais. E, eu realmente não estou com cabeça para algo sério agora. É melhor desse jeito, você verá. Um dia desses eu gostaria muito de dar uma volta com você e ter uma longa conversa. Queria muito contar minha história.
O garoto a encarava incrédulo. Ela percebeu. Hesitou um pouco antes de prosseguir:
- Não vai acontecer nada...Não posso. E não quero. Mas sei como você se sente. Gostaria muito de ajudá-lo se pudesse. Vou entender se não quiser mais me ver daqui pra frente.
O garoto levantou-se e deu dois passos, afastando-se dela. Depois parou e voltou-se novamente para a garota.
- Você não me conhece. Como pode falar sobre insegurança ou pessimismo? Você precisa se tratar, garota... - E foi-se embora, deixando-a para trás.
A menina continuou vivendo. Ainda sofria bastante pelo garoto que havia namorado, mas sofria também pelas duras palavras que o pretendente havia dirigido a ela. Seu único subterfúgio era afogar as mágoas em intermináveis lágrimas que só tinha coragem de chorar pela noite, quando estava sozinha em sua cama, sem a menor vontade de dormir. Ele não me merecia...E aquele outro muito menos! Quem precisa se tratar é ele! Aliás, os dois precisam! Repetia freneticamente sem dizer palavra alguma.
- Um relacionamento é construído por duas pessoas e não por apenas uma - disse sua amiga certa vez, após ouvir pela milésima vez as lamentações e insultos lançados aos dois garotos.
- Eu sei disso...
- Não, não sabe - Interrompeu a tal amiga rispidamente. - Todas as vezes que você fala desse seu relacionamento fracassado, você se refere apenas a ele, ao garoto. Todas as vezes que fala de suas mágoas, você se refere apenas ao outro garoto que a mandou se tratar. E você? Onde está sua parcela de culpa nisso tudo?
A garota arregalou os olhos e não pôde esconder o espanto pelo que a amiga dizia.
- Ou você não se lembra dos dias que tratou seu ''amado'' - e a amiga fez questão de destacar essa palavra com cuidado para não parecer irônica - com frieza e o chamou de idiota sem ao menos se dar ao trabalho de explicar a ele o motivo de você ter estado daquele jeito? Não se lembra da frase mais repetida por ele quando você o repelia dizendo que não queria mais falar com ele, ''o que foi que eu fiz?!'', não era? Não era o que ele a perguntava? Talvez a pergunta tenha sido feita incansavelmente por ele, não mais para você pois você não o responderia, mas para ele mesmo.
- Ele era insensível...Esquecia os horários dos nossos encontros e dizia coisas que me deixavam magoada... - Explicou a menina desconcertada.
- E você conversou sobre isso com ele? Não. Para você bastava chamá-lo de insensível e deixar a culpa nas costas dele. Claro, ele tinha a missão de adivinhar o que você estava sentindo, não? Aliás, todos têm a missão de adivinhar o que você quer, porque caso não façam isso, você fechará a cara e os tratará com frieza.
- Mas...
- E por DEUS! Dizer que o outro era pessimista e inseguro? O que você sabia sobre ele para dizer algo assim? O que ele respondeu foi pouco. Se tivesse sido eu, pode estar certa de que diria coisas muito piores.
- Pensei que você fosse ajudar...
- Errado, mais uma vez. Você pensou que eu fosse ser seu objeto, como pensa de todos os outros. Como pensou do seu ''amado'' e do garoto que você deu um ''fora''. Você podia ser um pouco menos egoísta, amor. Em momento algum você parou para pensar em como aqueles garotos devem ter se sentido. E se tivesse sido com você?
Aquela última frase chocou a garota. Ela não teve palavras para retrucar e tampouco adiantava fazer isso. Por alguns segundos, ela não sabia se o que sentia era bom ou ruim. Era raiva ou gratidão? Sem saber a resposta, levantou-se e saiu sem ser rude, mas também sem se despedir. A amiga, com a consciência tranquila - afinal ela não havia se alterado em momento nenhum durante a conversa- pensou consigo mesma enquanto fitava a pobre garota que caminhava olhando para algo que ela só podia enxergar naquele momento. Ela não entende os garotos. Mas acho que nunca vai entendê-los se não parar de julgá-los. Um dia aprende. Todos aprendemos. E relembrou das coisas tristes que haviam acontecido em seu passado e que a haviam feito aprender.
Natanael olhava para o horizonte. Havia sido cruel demais com a menina. Deu uma risadinha. Fui ao menos sincero, pensou dando de ombros. E jogou mais uma pedrinha no riacho, acompanhando-a com os olhos enquanto ela saltava pelas águas calmas.
- Você gosta disso, não? - perguntou a garota que se aproximava.
- Jogar pedrinhas na água? Sim... - Respondeu ele sem olhar para ela.
- Maluco. Mas não mais do que eu.
- Por quê? - Perguntou Natanael, finalmente encarando a garota.
- Porque enquanto você atira pedrinhas na água, eu me atiro por completo. - E atirou-se no riacho, molhando propositalmente as calças de Natanael, que deu um salto de susto.
- Você precisa se tratar! - Informou ele sorrindo.
A garota olhou para o céu e respondeu:
- Você é que precisa! Afinal, quem perde tempo atirando pedrinhas no riacho quando pode atirar a si mesmo?!- Perguntou animada.- A propósito, sou Clarissa. - E estendeu a mão molhada. Já havia observado aquele garoto outras vezes naquele local. Achava-o interessante e sabia que não tinha nada a perder. Conversaram durante a tarde e marcaram de se ver no dia seguinte, não no mesmo lugar nem na mesma hora.
Enquanto Ricardo, do outro lado da cidade, olhava para o computador. Lá estava a foto da indecifrável garota que tanto o havia tirado o sono. Espero que você descubra que o mundo não gira ao seu redor, menina. Ricardo lembrou-se das coisas que havia vivido com ela. Por um segundo, sentiu o impulso de ligar para ela e dizer que havia pensado melhor. Mas conhecia a orgulhosa garota. Sabia que ela no mínimo o mandaria pescar.
- Cláudia, Cláudia... - sussurrou. Esboçou um sorriso.- Como você costuma dizer, a vida continua.
E deletou a foto dela de seu computador.
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