quarta-feira, 14 de julho de 2010

Esperaram Demais

1 - Cena


Em uma noite, os dois se encontraram acidentalmente na saída de um bar no centro. Fazia tempo que eles não se falavam. Estavam interpretando bem seus papeis.
No início, conteram seus ânimos e demonstraram a frieza já comum aos dois naquela época.
- Vai para aquele lado?, perguntaram ao mesmo tempo, após alguns segundos de silêncio. Ambos deram uma tímida risadinha ao responderem, também ao mesmo tempo, que sim. Começaram a caminhar.
Estavam em silêncio, embora muito quisessem falar. Olhavam-se de canto de olho. ''Não, não quero mais gostar de você. Por que você ainda mexe tanto comigo?''. E logo desviavam o olhar, tentando coagir o impulso, tentando parar de pensar.
A noite estava fria. Poderiam estar aquecidos se estivessem abraçados. A rua estava deserta, nenhuma alma viva. Era o momento ideal para mais um beijo. ''Me daria um beijo se eu pedisse?'', perguntavam-se silenciosamente. ''Apenas um beijo...''. Porém um beijo seria o suficiente para despertar seus sentimentos. E eles não sabiam se era isso o que queriam.
Um deles, olhando para os lados, começou a falar, de início sem pretensão alguma, apenas para quebrar o monótono silêncio. Falou do frio, do dia que se passou, da chuva que havia passado, enfim, tagarelava como era de costume algumas poucas vezes ao mês.
''Permanece do mesmo jeito!'', pensou a outra pessoa, disfarçando um sorriso. ''Sempre com essa voz simples, simpática. Aliás, até as roupas são simples, sem exageros, de certo mal-gosto, mas que demonstram sua simplicidade de espírito, no melhor dos sentidos. Você nunca precisou de muito para ser quem sempre foi...Sempre falando em fé, DEUS...Sempre mascarando seus desejos em sua ingenuidade. E essa ingenuidade também mascara sua coragem! Sim, você tem uma coragem, uma certeza e até uma esperteza inabaláveis! E como eu amo tudo isso...Sua essência, seu tempero. Por que não consigo encontrar isso em mais ninguém?''.
E, calando-se, a pessoa que possuía a ''ingenuidade'' começou a sentir ''o cheiro''. O cheiro forte, indescritível, insubstituível, inegavelmente perfeito. ''Ainda possui este cheiro...'',pensou, olhando para a frente, apenas a rua escura e deserta no caminho. ''Este cheiro que, ao olfato dos outros, pode não ser um aroma mas que, ao meu, é a fragrância divina, paradisíaca, que me enche de êxtase! Eu poderia senti-lo a quilômetros de distância que ainda assim saberia que é seu! E seu ar de carência...Que esconde uma força tremenda, a qual conheço muito bem, e que até mesmo você conhece, apenas não admite que a tem. Sua capacidade, sua inteligência...Sinto tanta falta disto. E suas piadas...Você...Só você...Me fazia rir com piadas...'' Acabou soltando uma risadinha, a qual não passou despercebida.
- Por que você riu?, perguntou gentilmente a pessoa que possuía ''o cheiro''.
- Nada..., respondeu a outra, ainda sorrindo.
- Agora fale!
- Não vou falar, brincou.
- Fale! Por favor!, pediu novamente, agora sorrindo. Foi a primeira vez que pararam de andar. Se olharam nos olhos. Aquilo causou choque nos dois. Silêncio.
-Você não mudou nada!, disse delicadamente a pessoa da ''ingenuidade'', ainda inalando o aroma vindo da outra pessoa.
O frio da noite parou de os afetar. O encontro de seus olhos, o fascínio de seus atos, o laço de suas almas, tudo isso voltou de uma vez só.
- Você não mudou nada... Repetiu, a voz baixa, quase um sussurro.
- Não mudei?
- Continua me entretendo como ninguém ao contar como foram seus últimos trinta minutos antes de me ver... Respondeu. ''Sempre é assim!'', pensou consigo, sem conter o sorriso.
Silêncio. Estavam mais próximos. Podiam sentir a respiração um do outro. Sensação magnífica. O vento gelado socando-lhes o rosto passava despercebido perante o momento.
- Sempre passo os trinta minutos antes de ver você, imaginando...
Mais próximos.
- Imaginando o quê ?
Estavam agora a menos de trinta centímetros um do outro. Podiam ouvir os batimentos de seus corações. Podiam senti-los.
- Imaginando o quê?, perguntou novamente, um sussurro tão baixo e tão cheio de desejo.
- Imaginando se você me recepcionaria com um beijo...
E beijaram-se. O beijo foi veloz, ágil, quente. Uniram-se em um abraço apertado. Seus braços estavam segurando o corpo um do outro com força, de modo que ocupavam quase o mesmo espaço. Queriam aquilo. Queriam mais do que um beijo. Queriam tocar-se. Amar-se. Saíram dali. Seguiram para o apartamento. Rápidos, quase voaram.
E amaram-se! Amaram-se sem medo, sem hesitação. Nada mais existia. Nada mais precisava existir. Não naquele momento, pois a razão da existência deles era seu amor...E seu êxtase!

Minutos se passaram, quem sabe horas. Não olharam no relógio. Não precisavam. Depois deitaram-se e olharam para o teto. Silêncio. Suas mãos ainda estavam entrelaçadas. ''O que foi isso?", indagavam-se, embora soubessem a resposta: amor.
Respiravam calmamente agora. O ventilador de teto girava lentamente, como se acompanhasse suas respirações.O próprio quarto acompanhava-os. Não queriam acordar, caso aquilo fosse um sonho.
Viraram um para o outro. Seu olhar, sua química. '' O que você é pra mim?'' Não sabiam ou não queriam saber. Apenas se olhavam. Não se falavam há semanas. Como pôde um momento daqueles ter acontecido? Os minutos se passavam. O som do ventilador de teto os hipnotizaria, não fosse pelo som da voz baixa da pessoa que possuía ''o cheiro'':
- Então, é isso?
Hesitação. Silêncio. Tensão. Medo. E se fosse de fato ''só isso''? E se, depois daquilo, continuassem distantes?
- Não sei...
- Hum...
Desespero. ''Não! Não me deixe ir! Me segure, me prenda, faça alguma coisa!'', imploravam ao silêncio, e o silêncio implorava para ser quebrado por eles. Se o silêncio pudesse falar, diria ''Tome coragem, faça! Não perca isso...pode ser a última vez''

E a noite foi passando. Eles não queriam voltar ao mundo. Queriam que aquilo fosse eterno, mas nada sabiam sobre a eternidade. Eram tão jovens! Mas ainda estavam lá. Ainda tinham um ao outro, mesmo que só por aquela noite.
Seus olhos estavam pesados. Lutavam contra o sono. Não podiam dormir. E se, quando acordassem, o outro já tivesse partido? Não! Precisavam aproveitar aquele momento. ''Só mais um pouco...Mais um pouco...Mais...''. Já não podiam mais lutar. Seus olhos se fecharam e suas mãos continuaram unidas. Dormiram.

Eles tinham tanto a aprender! Tanto a viver! Era a hora de cometerem erros, sem dúvida, e não ousaram fazer a escolha. Tinham medo de que fosse cedo demais para um amor tão intenso. Tinham receio de abrir mão de certas coisas em pró daquilo.
Eram tão jovens, aqueles dois! Mas ainda estavam lá. Ainda tinham um ao outro, mesmo que só por aquela noite. E, ao menos por aquele noite, tinham a certeza de que se completavam.
Só o que os dois não sabiam era que as coisas poderiam acabar repentinamente e que, aquela noite, poderia ser a última disponível para perceberem o quanto se amavam. ''Ninguém sabe o dia de amanhã''. Contudo, os dois eram jovens demais para se darem conta disto. Eram jovens demais para sequer pensarem a respeito disto. Para eles, talvez, o melhor fosse mesmo apenas fechar os olhos e esperar. Afinal, o sol estava quase nascendo. Logo seria hora de acordar...

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